A agência que regula telecomunicações pode ganhar um papel muito maior na proteção digital do país. Entenda o que está em discussão, quem apoia a proposta e como isso pode impactar empresas, provedores e usuários.
Carlos Valente, em Junho 26, 2026 | 131 visualizações | Tempo de leitura: 6 min - 1165 palavras.
Hoje, a vida brasileira pulsa em bits e bytes. Hospitais migraram prontuários físicos para sistemas eletrônicos, o agronegócio depende de sensores conectados para a colheita, e serviços públicos essenciais operam inteiramente na nuvem. Essa digitalização acelerada traz ganhos imensos de produtividade, mas também nos torna alvos expostos a ataques cibernéticos que podem paralisar o país. Diante de um cenário em que a segurança digital é sinônimo de segurança nacional, surge a pergunta: quem será o guardião dessa infraestrutura no Brasil? A Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel) posicionou-se para assumir esse papel, desencadeando um debate profundo sobre governança e o futuro da nossa resiliência digital.
A Anatel propôs formalmente assumir a coordenação da política nacional de cibersegurança. O argumento técnico é sólido: a agência não regula apenas chamadas de voz, mas também a espinha dorsal da economia digital. Cabos submarinos, redes de fibra óptica, satélites e torres de celular são infraestruturas críticas, ou seja, o conjunto de instalações e serviços que, se interrompidos, provocam sérios impactos sociais ou econômicos, sobre as quais toda a sociedade conectada se sustenta.
A agência possui ativos que poucas instituições brasileiras reúnem: 28 anos de experiência regulatória, uma rede de laboratórios para certificação de equipamentos e uma capilaridade nacional única, com representações em todos os estados. Para a Anatel, a cibersegurança é uma extensão lógica de sua missão de garantir que as redes de comunicação sejam confiáveis e resilientes.
"Com a expertise e o corpo técnico que temos, podemos atuar como autoridade responsável pela cibersegurança no Brasil." Gustavo Borges, superintendente executivo da Anatel.
É fundamental compreender o que está em jogo. A Anatel não pretende se tornar o regulador técnico de todos os setores. Em termos didáticos, uma agência reguladora é um órgão do Estado que fiscaliza e estabelece regras para setores específicos. O plano proposto foca na coordenação nacional, e não em uma centralização absoluta de poderes.
Nesse modelo, a Anatel trabalharia de forma articulada com outros reguladores setoriais, como os da saúde, energia e aviação civil. Enquanto a agência estabeleceria diretrizes gerais de segurança e respostas a incidentes de grande escala, os especialistas de cada área continuariam dando a palavra final sobre as especificidades técnicas de seus próprios setores. Essa distinção é vital para evitar conflitos de interesse e garantir que o conhecimento especializado de cada indústria seja preservado.
O debate sobre a liderança da cibersegurança ocorre no âmbito do CNCiber (Comitê Nacional de Cibersegurança), órgão que reúne governo e sociedade civil para formular políticas na área. No comitê, existe um consenso teórico de que o ideal seria a criação da ANCiber, uma agência dedicada exclusivamente ao tema. No entanto, o Brasil enfrenta o desafio do tempo e da restrição fiscal.
Criar uma nova autarquia exige contratação de pessoal, infraestrutura e anos para atingir maturidade operacional. Por isso, a Anatel surge como uma opção pronta para uso. No entanto, o caminho não está livre de atritos políticos. Apesar de 18 dos 20 membros do CNCiber terem votado a favor do encaminhamento da proposta com a Anatel, houve oposição do MJSP (Ministério da Justiça e Segurança Pública) e do MGI (Ministério da Gestão e da Inovação em Serviços Públicos). O MJSP argumenta que poucos países unem telecomunicações e cibersegurança em um único órgão, enquanto o MGI demonstra preocupação com a sobreposição de funções com o GSI (Gabinete de Segurança Institucional), que hoje cuida da segurança da informação no governo.
"Do lado da urgência, uma vez que os ataques cibernéticos não param de crescer, a Anatel desponta como a melhor opção." Luiz Fernando Moraes da Silva, diretor do Departamento de Segurança Cibernética do GSI.
A atuação da agência já avança para além das redes tradicionais. A Anatel trabalha na atualização da Resolução 740, seu principal regulamento de cibersegurança, para incluir novas fronteiras tecnológicas. É uma demonstração de que, enquanto o Poder Legislativo avança lentamente nos debates sobre a regulação das big techs, o regulador está efetivamente implementando normas práticas sem fazer alarde.
Para o público, é essencial compreender os novos alvos dessa regulação:
Um ponto crucial da nova regulação é o dever de notificação dual. Em caso de incidentes que envolvam dados pessoais de usuários, as empresas serão obrigadas a notificar tanto a Anatel quanto a ANPD (Autoridade Nacional de Proteção de Dados), evidenciando a convergência entre segurança cibernética e privacidade.
O destino dessa nova governança está atrelado ao PL 4.752/2025, projeto de lei que institui o Marco Legal da Cibersegurança no Brasil. A expectativa é que o texto avance no Congresso ainda este ano, possivelmente unificando propostas do Executivo e do Legislativo para criar o Programa Nacional de Segurança e Resiliência Digital.
A cibersegurança deixou de ser um detalhe técnico para se tornar uma questão de soberania digital e proteção do consumidor. Seja por meio da expansão da Anatel ou da futura criação de uma agência dedicada, o país busca um modelo que acompanhe a velocidade da inovação sem sufocá-la.
Fica a reflexão: em um mundo em que um ataque hacker pode paralisar hospitais e redes elétricas em segundos, o Brasil pode se dar ao luxo de esperar pelo modelo institucional perfeito ou precisa de um xerife digital que já esteja pronto para agir?
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Nota: Todas as imagens utilizadas neste artigo foram geradas com o auxílio de inteligência artificial por meio do ChatGPT 5.5 e Nano Banana 2, com o objetivo de ilustrar o conteúdo de forma didática e acessível aos nossos leitores.