Variante oculta a comunicação com servidores criminosos, cria tarefas falsas e amplia o risco de roubo de dados, espionagem e ataques de ransomware.
Carlos Valente, em Agosto 03, 2026 | 142 visualizações | Tempo de leitura: 8 min - 1422 palavras.
A maioria das pessoas imagina que um vírus precisa acessar um endereço suspeito ou abrir uma conexão incomum para receber ordens dos criminosos. Uma nova variante do TrickBot, porém, transforma uma função básica da internet em um canal secreto de comunicação.
O malware passou a esconder comandos dentro de consultas DNS, o mesmo tipo de tráfego utilizado diariamente pelo computador para localizar sites. Com isso, uma conexão aparentemente normal pode transportar instruções maliciosas, dados roubados e novos componentes do ataque sem despertar a atenção das defesas tradicionais.
O DNS, sigla para Sistema de Nomes de Domínio, funciona como uma espécie de agenda telefônica da internet. Quando alguém digita o endereço de um site, o DNS descobre qual servidor deve ser acessado.
Como esse serviço é indispensável para o funcionamento de praticamente qualquer rede, o tráfego DNS costuma ser permitido por roteadores, firewalls e sistemas corporativos. O TrickBot explora exatamente essa confiança.
Em vez de utilizar conexões HTTP convencionais, a variante esconde informações dentro das próprias consultas DNS. Essa técnica recebe o nome de tunelamento DNS.
Na prática, o malware cria um túnel secreto dentro de um caminho legítimo. Para uma ferramenta de segurança mais simples, o computador parece apenas consultar endereços da internet. Por trás dessas consultas, porém, ele pode estar conversando com um servidor controlado por criminosos.
Antes de enviar uma informação, o TrickBot embaralha os dados por meio de uma operação matemática chamada XOR. Em seguida, converte o resultado para o formato hexadecimal, que utiliza números e letras para representar informações digitais.
O malware divide essa sequência em blocos e os organiza como se fossem partes de um endereço de internet. Depois, acrescenta esses blocos ao domínio criminoso utilizado para controlar a operação.
O resultado pode parecer uma consulta DNS incomum, mas não necessariamente maliciosa para sistemas que não analisam o comportamento da rede com profundidade.
As respostas também ficam escondidas. O servidor criminoso distribui os dados dentro de endereços IPv4, aqueles números formados por quatro grupos, como 192.168.0.1.
Cada endereço carrega uma pequena parte da informação. O malware reúne os fragmentos, reorganiza o conteúdo e reconstrói a resposta completa. Dessa forma, os invasores conseguem enviar comandos sem estabelecer uma conexão tradicional.
O TrickBot surgiu em 2016 com foco no roubo de informações bancárias. Com o passar dos anos, transformou-se em uma plataforma modular capaz de executar diferentes tipos de ataques.
Uma arquitetura modular funciona como um conjunto de peças que podem ser adicionadas conforme o objetivo dos criminosos. Depois de infectar um computador, o malware pode baixar novos componentes para capturar senhas, espionar a rede, roubar documentos ou preparar a instalação de um ransomware.
Ransomware é um tipo de ataque que bloqueia arquivos ou sistemas e exige pagamento para restaurar o acesso. Muitas vezes, porém, a criptografia dos dados representa apenas a etapa final de uma invasão que começou semanas ou meses antes.
O TrickBot também pode funcionar como um corretor de acesso. Nesse modelo, um grupo invade a rede e vende a entrada para outra organização criminosa, que realiza o roubo de dados ou o ataque de ransomware.
Para permanecer ativo, o TrickBot utiliza o Agendador de Tarefas do Windows. Essa ferramenta legítima permite configurar programas para executar automaticamente em horários específicos ou durante a inicialização do computador.
O malware cria tarefas com nomes que parecem pertencer a atualizações confiáveis. Um exemplo identificado foi Wireshark autoupdate #72784, que tenta imitar uma atualização do analisador de redes Wireshark.
Essas tarefas podem executar o malware sempre que o sistema é iniciado e repetir a ação a cada cinco minutos. Mesmo que o processo seja encerrado, ele pode voltar pouco tempo depois.
O ataque também utiliza fluxos de dados alternativos do sistema de arquivos NTFS. Conhecidos como ADS, esses espaços permitem esconder informações adicionais dentro de um arquivo sem alterar sua aparência principal.
Por isso, uma verificação superficial pode não revelar o nome da tarefa maliciosa nem o caminho utilizado pelo executável.
A variante analisada aceita 12 tipos de comandos enviados pelo servidor criminoso. Ela pode executar instruções pelo Prompt de Comando, iniciar scripts do PowerShell, baixar programas e carregar códigos diretamente na memória.
Entre as técnicas utilizadas está o process hollowing, ou esvaziamento de processo. Nesse método, o malware inicia um programa legítimo, remove parte de seu conteúdo e coloca um código malicioso no lugar.
Para quem observa apenas o nome do processo, tudo pode parecer normal. Internamente, porém, o programa executa uma função completamente diferente.
Outra técnica é o process doppelgänging, que explora recursos do Windows para executar códigos maliciosos de forma mais difícil de detectar. Essas estratégias reduzem a quantidade de arquivos suspeitos gravados no armazenamento e dificultam a análise por antivírus tradicionais.
O TrickBot esconde nomes de funções, bibliotecas e comandos utilizados durante a execução. Essas informações permanecem criptografadas e só aparecem na memória no momento em que são necessárias.
O malware também evita solicitar funções do Windows de maneira convencional. Em vez disso, utiliza códigos matemáticos chamados hashes para encontrar cada recurso necessário.
Isso dificulta a análise estática, que examina um arquivo sem executá-lo. Um especialista pode abrir a amostra e não encontrar referências claras a funções importantes do sistema.
Essa proteção não torna o malware invisível, mas aumenta o tempo necessário para compreender seu funcionamento e desenvolver formas de detecção.
O domínio westurn.in foi identificado como parte da infraestrutura de comando e controle dessa variante. Bloqueá-lo pode interromper uma campanha específica, mas não elimina a técnica.
Os criminosos podem registrar novos domínios, alterar o formato das consultas ou migrar a operação para outros servidores. Por isso, a defesa não deve depender apenas de listas de endereços conhecidos.
O comportamento da rede oferece sinais mais duradouros. Consultas DNS muito longas, subdomínios formados por sequências incomuns e um volume excessivo de requisições podem indicar a existência de um túnel oculto.
Empresas precisam monitorar não apenas quais endereços foram acessados, mas também como computadores, programas e usuários se comportam.
Soluções de SIEM centralizam registros de servidores, computadores e equipamentos de rede. Ferramentas de UEBA analisam esses dados para identificar ações fora do padrão, como um computador que começa a realizar milhares de consultas DNS incomuns.
Também é importante monitorar a criação de tarefas agendadas, especialmente quando elas executam arquivos armazenados em pastas temporárias ou utilizam nomes parecidos com atualizações legítimas.
Soluções de proteção de endpoint podem detectar tentativas de injeção de código, uso suspeito do PowerShell e execução anormal de ferramentas legítimas como rundll32.exe.
A autenticação multifator acrescenta outra camada de proteção. Mesmo que o malware consiga roubar uma senha, o invasor ainda precisará de uma segunda confirmação para acessar determinados sistemas.
O tema central deste artigo é o uso de malware em computadores Windows para ocultar comandos, roubar credenciais e preparar ataques mais graves.
A nova variante do TrickBot mostra que uma atividade aparentemente comum pode esconder uma invasão sofisticada. O DNS, criado para ajudar computadores a localizar serviços na internet, também pode ser transformado em uma passagem secreta para criminosos.
Firewalls, antivírus e bloqueios continuam importantes, mas já não bastam quando o ataque utiliza ferramentas e protocolos legítimos. A segurança depende cada vez mais da capacidade de reconhecer comportamentos anormais antes que o roubo de dados ou o ransomware revele que a rede estava comprometida.
Se um computador pode conversar com criminosos por meio de consultas aparentemente normais, quantas atividades consideradas comuns ainda passam pelas redes sem uma análise adequada?
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Nota: Todas as imagens utilizadas neste artigo foram geradas com o auxílio de inteligência artificial por meio do ChatGPT 5.6 e Nano Banana 2, com o objetivo de ilustrar o conteúdo de forma didática e acessível aos nossos leitores.